Por que eu não uso [e provavelmente nunca vou usar] câmeras mirrorless?

Em um artigo recente aqui no blog vimos que existem fotógrafos que fazem casamentos inteiros usando o celular (no caso, o iPhone). É claro que o profissional fica limitado, mas com um bom olho e muita criatividade, é sim possível fazer um casamento com aquela minúscula câmerazinha.

A vantagem de uma câmera menor, acredito, é o peso e tamanho. E é pensando nisso que alguns fotógrafos estão migrando para as chamadas mirrorless (câmeras sem espelho), e muitos outros já estão testando esse tipo de câmera. Pelo fato de não terem espelho e devido a outros detalhes na concepção (projeto) dessas câmeras, é possível fazê-las muito menores e mais leves. Diversos fabricantes, tais como Canon, Nikon, Olympus, Panasonic e Sony, já oferecem câmeras assim. Dessas, provavelmente as que acabarão se tornando mais populares são as chamadas Micro 4/3 (do inglês micro-four-thirds ou MFT), da Olympus e Panasonic. E é provável que muitos fotógrafos profissionais e entusiastas estejam nesse exato momento se perguntando se vale a pena adquirir uma câmera dessas (talvez uma Olympus OM-D E-M5). Eu mesma já me perguntei isso e, depois de muita pesquisa, minha resposta é: Só o dia em que eu estiver rasgando dinheiro. Digo isso por pelo menos 3 razões:

Profundidade de campo (efeito bokeh)

As mirrorless em geral, especialmente as MFT, possuem sensores muito pequenos e que além disso são posicionados muito próximos das lentes. Por questões de ótica que não pretendo detalhar aqui, o projeto dessas câmeras acaba prejudicando o uso criativo do efeito bokeh, que é basicamente determinado pela abertura (e outros fatores que explicarei em outro post). Uma lente com abertura de f2.8, por exemplo, que daria um excelente efeito bokeh em uma câmera full frame ou APS-C, resulta em uma abertura equivalente ao dobro (f5.6) em uma MFT. Ou seja, para fins de fotometria ela é f2.8, mas para fins de profundidade de campo ela equivale a uma f5.6. E isso limita muito o fotografar. Para conseguir um efeito bokeh razoável você será obrigado a adquirir uma lente caríssima, quem sabe uma Voigtlander f0.95, que aí sim daria um efeito bokeh equivalente a uma f2.0. Só que, detalhe, essas lentes são caríssimas, difíceis de encontrar e não possuem foco automático (é isso mesmo!). Na verdade a culpa não é das lentes em si, mas do projeto MFT que acaba por limitar a profundidade de campo com vistas a reduzir o peso e tamanho da câmera.

Lentes são muito caras apesar de "piores"

O projeto das MFT também foi concebido para reduzir o tamanho das lentes. E de fato isso ocorre. Como o projeto foi desde o início pensado para as câmeras digitais (não analógicas), foi possível projetar lentes que utilizassem menos vidro e menos elementos de correção ótica (mais vidro), pois a imagem, se distorcida ou com alguma aberração cromática, é corrigida pelo software do computador da câmera. Então, em tese, se temos menos vidro e menos necessidade de elementos de correção ótica, teríamos que ter lentes mais baratas. Mas na prática isso não ocorre. As lentes são muito caras para o que elas oferecem. Sem a correção de distorção pelo software da câmera, a distorção é altíssima. Paga-se caro por uma lente cuja qualidade ótica está muito, muito longe de uma lente convencional DSLR, que geralmente entrega a imagem com algo muito próximo de zero distorção e zero aberração cromática (fora outros fatores). Na minha humilde opinião, as lentes MFT, como são mais baratas (menos vidro) e mais fáceis de fabricar (pois não há muita preocupação com a qualidade ótica) tinham que ser muito mais baratas!!! E isso infelizmente não ocorre. Quem sabe um dia, quando eles tiverem mais escala de produção... :(

Baixo desempenho em ISO alto

Por fim, as MFT, por terem sensores muito pequenos, tendem a perder em desempenho para as full frames e APS-C em situações de baixa luminosidade, quando é necessário usar um ISO muito alto (talvez >3200). Isso ocorre porque os pixels do sensor são menores e captam menos luz, o que gera mais ruído. É claro que existem sensores muito bons, como o das novas mirrorless da Fujifilm, mas o desempenho em ISOs altos sempre vai ter uma contrapartida (em geral na nitidez ou na profundidade de cor).

Bom, desse jeito parece que as mirrorless só possuem defeitos. Mas isso não é verdade. São câmeras boas que têm uma série de pontos positivos. Só acho que pelas razões acima ainda é cedo para substituir as DSLRs convencionais. Repetindo: A minha crítica vai para a "substituição". Limitações impostas pela própria concepção das MFT e questões de preço são determinantes para todo profissional, que precisa de um equipamento que permita tirar o máximo da sua técnica e criatividade. Eu teria uma mirrorless para me acompanhar nas minhas viagens, pela leveza e portabilidade, mas nunca usaria uma câmera dessas na cobertura de um evento ou em um ensaio fotográfico (só se fosse o backup do backup). Pessoalmente, acredito que o caminho não seja substituir as câmeras com espelho, mas sim tentar fazê-las menores, mais leves e, por mim, com sensores cada vez maiores ;)

Atualização: ... falando em fazer câmeras com espelho melhores e mais leves, a Nikon lançou em setembro/2014 a Nikon D750 com desempenho muito similar à Canon 5D Mk III. Só que tem um detalhe: a Nikon D750 utiliza fibra de carbono na sua estrutura, o que a deixa mais leve (750g vs. 860g = 110g de diferença!). E isso que ela tem a tela móvel e flash embutido (coisas que a outra não tem!). Se as fabricantes continuarem investindo em pesquisa, e conseguirem reduzir o peso não só dos corpos, como também das lentes, a vantagem das mirrorless desaparece. Em relação às lentes, a quantidade de elementos óticos para correção aumenta muito o peso delas. Se eles conseguirem produzir elementos óticos com maior precisão e reduzir a sua quantidade dentro das lentes, o peso poderia diminuir. 

E isso que nem falei do problema do viewfinder (quem sabe em outro post...).

Até lá, prefiro investir meu suado dinheiro em câmeras que vão me dar o máximo de flexibilidade e desempenho.

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